sexta-feira, 15 de março de 2013

Minha homenagem a mim mesmo...



   Meu consultório estava às moscas. 
   Não, não é no sentido metafórico. A tiazinha da limpeza tinha ido embora há uma semana e o lixo se acumulava pelos cantos, sobras de sanduíches do Subway misturados com luvas, seringas, e outras coisas. Então as moscas adoravam. Só tinha sobrado a secretária, que por sinal era muito gostosa. Não sabia o que aquela mulher estava fazendo ali, com aquele corpo eu já teria conquistado a América inteira, ou dado pra América inteira, sei lá. Seus peitos eram tão grandes quanto sua incompetência, aliás peitos são a prova viva de que homens conseguem, sim , fazer duas coisas ao mesmo tempo. E eu era um homem de peitos. Minha primeira e única tentativa de seduzi-la, puxando intempestivamente pro meu colo, tinha acabado numa sonora bofetada. Ela tinha uma puta mão pesada, e eu acho que  gostou. Estava no papo.

   Eu não conseguia entender o que tinha acontecido comigo. Meus pacientes tinham ido quase todos embora, junto com a vozinha da limpeza. Agora chamava de vó porque aquela mequetrefe tinha me abandonado também. Eu tinha uma formação excelente, faculdade e residência em uma faculdade federal renomada, estágio nos Estates, etc. Alguma coisa eu teria que rever. Baixei o preço das consultas para preços bem populares, como 10 pratas, e nem assim eu conseguia pagar nem o aluguel de um cubículo no Méier. E era Méier no lado ruim, nem Dias da Cruz dava.

   Sempre tive vontade de me anunciar tipo 007. Bond, James Bond. Acontece que meus pais fizeram um acordo cretino, em que cada um pegou  nome ou sobrenome, tiraram no palitinho o que cada um iria escolher. Meu nome tinha sido decidido pela merda de um palito. Caiu o nome pro meu pai, que era fã do eterno cowboy da trilogia do Sérgio Leone, junto com Lee Van Cliff. E pra minha mãe o sobrenome e a desalmada tinha posto Costa Pinto da Silva. Porra mãe, Silva? É pra manter a brasilidade, ela me explicou uma vez. Pensando bem, poderia ter sido pior, como José Eastwood. Aí sim eu ficaria muito puto.

A secretária gostosa (não consegui prestar atenção no nome quando ela disse, estava hipnotizado pelo decote) deu um berro da recepção  alertando que havia uma consulta. Tinha vendido o interfone para pagar a conta de luz. MANDA ENTRAR!- Berrei de volta.
Uma mulher meio assustada e uma criança de uns 5 anos ranhenta sentaram à minha frente. Eu os conhecia de algum lugar.
- Bom dia, Doutor – ela parecia preocupada
- Hum...
- Então, eu estive aqui ontem ,lembra?
- Não. – resmunguei. Ela começou a torcer as mãos de nervosismo.
- Lembra doutor, eu estive aqui com o Lucas, o senhor diagnosticou otite externa, e o senhor receitou pingar 2 gotinhas no ouvido direito.
- E qual o drama minha senhora?
- Pois é, fiquei em dúvida se era pra pingar no direito dele ou à minha direita quando olho de frente.
Eu não aguentei. Levantei, dei um soco na mesa e proferi, depois de alguns impropérios impublicáveis.
- A SENHORA PINGA NO QUE ESTIVER DOENDO!!!
Ela, claro saiu correndo esbaforida. Eu ainda tentei passar uma banda nas pernas dela, mas não consegui. Melhor assim.
- PRÓXIMO ! – era a última daquele dia miserável.
Adentra um casal meio ressabiado, olhando para os lados. Sentaram.
- Pois não? Os dois tinham marcado consulta. Eu ia começar pelo cara.
- Então doutor, meu problema é um sangramento...por trás..., mas confesso que estou bem desconfortável porque...
- Moleza! Arria as calças e olha pra parede– eu cortei o cara , estava louco pra ir embora.
O cara não teve outra opção, fez o que eu tinha dito, reclamando de constrangimento. Eu peguei xilocaína geléia, passei no dedo e fiz um toque retal digno do cimeriano Conan, o Bárbaro.
- Ai, porra! Doutor, isso dói! – 
- Pronto, parceiro, vou te pedir uns exames. Quero lembrar que quando te passarem um colonoscópio, você vai sentir saudade do meu dedo.
Virei para a mulher.
- E você, não vai me dizer que é a mesma coisa do seu marido?
- Doutor, ele não é meu marido.
- Namorados, então. Desembucha.
- Doutor, eu nunca vi esse senhor na minha vida.
- O que???
- Acho que era isso que ele estava tentando te explicar. Sua secretária deve ter se confundido e mandou a gente entrar juntos. Achei que seria normal, pela mixaria que a gente paga aqui, nada mais normal que consultas duplas, certo?

Coloquei os dois pra fora, fui à recepção e dei um esporro de marinheiro, aliás que não se dá nem em um marinheiro. Ofendi até uma tataravó da secretária boazuda, chamando de messalina. Ela deu outro tapa  no meu rosto e foi embora dali mesmo. Tive certeza que ela me amava.
Silva, Clint Silva. Resolvi  usar essa apresentação. Agora sim eu estava sozinho. Acho que vou ter que me mudar pra um cubículo em Bangu ou depois, na Avenida Brasil. E eu odiava calor, tive receio de começar a tratar as pessoas mal por causa do calor. Bom, paciência, melhor Bangu que Baixada Fluminense.

Nota do autor: Os dois casos são verídicos de alguma forma. O caso do casal aconteceu com Dário Vianna Birolini, que escreveu o ótimo “Estratégia da Lagartixa”, que conta a vida nos bastidores da medicina. Claro que ele não conduziu o caso como o personagem. É um lord, principalmente quando eu estou perto.

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Hugo Pires Teixeira (@hugopt)
São José dos Campos e Rio de Janeiro, BR|SP, Brazil
Hugo: Médico, anestesista, mau humorado,careca máquina zero, ateu, pai, marido e peão. Levemente sarcástico. Colaboração: Luis: Médico, coreógrafo militar, escroque, boateiro.
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